Débito e crédito parecem a mesma coisa quando passas o cartão, mas funcionam de forma completamente diferente. No débito, o dinheiro sai imediatamente da conta. No crédito, o banco empresta-te o valor e tu pagas no fim do mês. Se pagares o total em cada fatura, o cartão de crédito é uma ferramenta útil. Se não pagares, os juros de 15 a 19% ao ano transformam compras do dia a dia em dívida cara e difícil de sair.
O que é
Um guia comparativo entre cartão de débito e cartão de crédito em Portugal: como funciona cada um, quando usar cada opção e como evitar os juros do crédito revolvente.
O que aprendes
A diferença entre débito e crédito na prática, como funciona o crédito revolvente e o que te custa realmente e o que verificar antes de pedir um cartão de crédito.
O que podes fazer
Perceber qual o cartão mais adequado ao teu perfil, comparar os critérios principais como TAEG, anuidade e cashback e configurar o débito automático a 100% para nunca pagares juros.
A diferença num relance
Cartão de Débito
- Dinheiro sai imediatamente da conta
- Nunca gastas mais do que tens
- Zero juros, sempre
- Simples de gerir
- Sem cashback nem benefícios
- Aluguer de carros pode exigir cartão de crédito
Cartão de Crédito
- Pagas no fim do mês
- Pode ter cashback ou pontos
- Aceite universalmente (incluindo aluguer de carros)
- Juros de 15-19% ao ano se não pagares tudo
- Exige disciplina financeira
Cartão de Débito: o dinheiro é teu
O cartão de débito é o teu cartão Multibanco tradicional. Quando fazes uma compra, o dinheiro sai imediatamente da tua conta à ordem. Não há dívida, não há juros, não há surpresas no fim do mês.
Em Portugal, praticamente todos os cartões Multibanco são de débito. São emitidos pelo teu banco e ligados diretamente à tua conta. Podes usá-los para compras em lojas e online, levantamentos em Multibanco e pagamentos por MB WAY.
Vantagem principal
Impossível gastares dinheiro que não tens. Se a conta estiver a zero, o pagamento é recusado.
Ponto de atenção
Alguns bancos oferecem "descoberto autorizado", que te permite gastar mais do que tens. Isso tem juros e convém desativá-lo se não precisares.
Quando o débito é a melhor escolha:
- Se estás a tentar controlar os gastos e não confias em ti para não usar o crédito
- Para compras do dia a dia onde não há benefício de usar o crédito
- Para levantamentos de dinheiro em Multibanco
Cartão de Crédito: o dinheiro é do banco
Com o cartão de crédito, o banco empresta-te dinheiro temporariamente para fazeres compras. Quando passas o cartão, não sai nada da tua conta no momento. O banco paga à loja e tu ficas com uma dívida ao banco.
No fim do mês recebes uma fatura com todas as compras do período. É aqui que as coisas se tornam críticas: como é que pagas essa fatura?
O ciclo de faturação: como funciona na prática
Durante o mês vais fazendo compras com o cartão de crédito. Por exemplo: 150€ no supermercado, 80€ de gasóleo, 40€ num restaurante = 270€ de fatura.
No final do mês o banco fecha a fatura (data de fecho). Sabes exatamente quanto gastaste.
Tens até à data de vencimento para pagar (habitualmente 20 a 30 dias após o fecho da fatura), numa data que escolhes quando abres o cartão. Se pagares os 270€ completos: zero juros, zero custos.
Se pagares apenas 50€ (pagamento mínimo), os restantes 220€ ficam em dívida e começam a gerar juros imediatamente. É aqui que o problema começa.
Como usar o cartão de crédito a teu favor
O cartão de crédito não é o inimigo. Usado com disciplina, pode até dar-te dinheiro de volta. A única regra que importa é pagar sempre a 100%.
Ativa o débito automático a 100%
A primeira coisa a fazer quando tens um cartão de crédito é ir à aplicação do banco e configurar o pagamento automático da fatura a 100% todos os meses. Assim é automático, não depende de te lembrares e nunca acumulas juros.
Aproveita o cashback e os benefícios
Alguns cartões de crédito devolvem uma percentagem das compras (cashback). Se gastares 500€ num mês e o cartão tiver 1% de cashback, recebes 5€ de volta, sem fazer mais nada. Se pagares a 100%, é dinheiro grátis por usares o cartão em vez do débito. Antes de escolheres um cartão de crédito, compara as condições de cashback e as anuidades.
Usa para reservas de hotéis e aluguer de carros
As empresas de rent-a-car e muitos hotéis retêm um depósito de segurança enquanto tens o carro ou o quarto. Com cartão de débito, esse valor sai mesmo da tua conta e fica bloqueado vários dias. Com cartão de crédito fica retido no limite do cartão, ou seja, o banco reserva parte do crédito disponível, mas não cobra nada enquanto não devolveres o carro ou saíres do hotel.
Verifica a fatura mensalmente
Mesmo com o débito automático ativo, vale a pena ver a fatura todo o mês. Tens a visão de todos os gastos do período, o que é útil para controlar o orçamento. Além disso, podes detetar cobranças erradas ou compras que não reconheces.
Nunca faças isto com o cartão de crédito:
- Levantar dinheiro em Multibanco com o cartão de crédito (cash advance): pagas sempre uma comissão imediata (valor fixo + percentagem sobre o montante) e, na maioria dos bancos, os juros começam a contar no próprio dia sem período de graça. Evita sempre esta opção.
O crédito revolving: a armadilha do pagamento mínimo
O crédito revolving é o nome técnico para o mecanismo em que só pagas uma parte da fatura do cartão de crédito e o resto fica em dívida a acumular juros. É o produto financeiro mais caro para o consumidor e o mais rentável para os bancos.
O pagamento mínimo é definido pelo banco, normalmente entre 3% e 5% do saldo em dívida, com um valor mínimo fixo (habitualmente entre 10€ e 25€). O banco aceita que pagues só esse valor, mas o restante fica a acumular juros até ao mês seguinte.
O que acontece se pagares só o mínimo?
O que acontece se pagares só o mínimo
Com pagamento mínimo, os juros mensais (cerca de 15€ a 16€ por mês sobre 1.000€ a 19% TAEG) consomem grande parte do pagamento. Estás a pagar, mas a dívida desce muito lentamente.
O que diz a lei portuguesa sobre o pagamento mínimo:
O Banco de Portugal regulamentou o crédito revolving e exige que os bancos informem o consumidor do custo real do pagamento mínimo, incluindo o tempo que demorará a liquidar a dívida e o custo total em juros. Se tiveres um cartão de crédito revolving, o extrato mensal deve ter esta informação. Vale a pena lê-la.
Se tiveres dívida num cartão de crédito revolving, a prioridade financeira número um é liquidá-la. Não vale a pena poupar em Certificados de Aforro a 2,2% enquanto tens uma dívida a custar 19% ao ano.
Cartões de crédito em Portugal: o que tens disponível
Nem todos os cartões de crédito são iguais. Podes obtê-los num banco tradicional, numa cadeia de retalho como o Continente, ou num banco digital. As condições variam bastante entre eles.
Cartões dos bancos tradicionais (Millennium, BPI, Santander, CGD, etc.)
Ligados à tua conta bancária. Os cartões de entrada são habitualmente isentos de anuidade; os cartões gold e premium cobram normalmente entre 15€ e 40€ por ano. São os mais fáceis de gerir porque já estás no mesmo banco. O cashback e os restantes benefícios variam bastante de banco para banco e de cartão para cartão.
Cartões revolving (Cartão Universo, WiZink, etc.)
São cartões especializados em crédito revolving, com TAEG muito elevada (normalmente 18% a 19%, próxima do máximo legal). O Cartão Universo está associado às superfícies Sonae (Continente, Worten, etc.); o WiZink é um banco digital especializado apenas em crédito revolving. Em ambos o modelo de negócio assenta no pagamento mínimo e nos juros gerados. Podes usá-los com vantagem se pagares sempre a 100%, mas o risco de cair no crédito revolving é alto.
Cartões de bancos digitais (Revolut, N26, etc.)
Alguns bancos digitais oferecem cartões com boas condições para quem viaja muito (câmbio ao mercado, levantamentos em ATM sem comissão até um limite mensal consoante o plano). As condições variam bastante com o plano de subscrição escolhido. São seguros, mas não estão sob supervisão comportamental do Banco de Portugal. Em caso de litígio, é o regulador do país de origem que intervém (Alemanha no caso do N26, Lituânia no caso do Revolut).
O que comparar antes de pedir um cartão de crédito
Quando o banco te apresenta um cartão de crédito, a proposta parece simples: só o nome e o limite disponível. Mas há outras variáveis que determinam se o cartão vai trabalhar a teu favor ou contra ti. Usa esta tabela como lista de verificação antes de assinares seja o que for.
| O que comparar | O que é | Referência | O que procurar |
|---|---|---|---|
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Taxa Anual Efetiva Global |
O custo real do crédito ao longo de um ano inteiro, obrigatório por lei. Inclui juros, comissões e outros encargos associados ao cartão. | 15% a 19% ao ano | Quanto mais baixa melhor. Se pagares sempre a fatura a 100%, a TAEG torna-se irrelevante porque nunca chegas a pagar juros. |
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Anuidade Custo anual do cartão |
O valor fixo que pagas por ano só por teres o cartão, independentemente de o usares ou não. Pode ser cobrado de uma vez ou repartido mensalmente. | 0€ (cartões base) até 40€ por ano (cartões gold e premium) | Prefere sempre anuidade zero. Se o cartão cobrar anuidade, os benefícios que oferece têm de valer mais do que esse custo anual. |
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Cashback Devolução em dinheiro |
Percentagem de cada compra que o banco te devolve automaticamente, creditada na fatura seguinte ou diretamente na conta à ordem. | 0,25% a 2% por compra | Quanto mais alto melhor. Verifica se existe limite mensal ao cashback e se se aplica a todas as compras ou apenas a categorias específicas como supermercados. |
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Débito automático a 100% Essencial |
Opção que paga automaticamente o total da fatura a partir da conta à ordem, todos os meses, sem precisares de fazer nada. | Disponível na maioria dos bancos | Tem de existir obrigatoriamente. É esta funcionalidade que evita que te esqueças de pagar e acabes a pagar juros. |
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Período sem juros Prazo de graça |
Os dias entre o fecho da fatura mensal e a data limite para pagares. Durante este intervalo não há juros, mesmo que a dívida ainda esteja por liquidar. | 20 a 30 dias | Quanto mais longo melhor. Dá-te mais tempo para garantir que o dinheiro está na conta à ordem antes de sair pelo débito automático. |
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Pagamento mínimo |
A percentagem mínima da fatura que o banco aceita que pagues por mês. O valor restante fica em dívida e acumula juros até ao mês seguinte. | 3% a 5% do saldo em dívida (com mínimo de 10€ a 25€) | Ignora esta linha na prática. Nunca deves pagar só o mínimo. O débito automático a 100% resolve isto automaticamente. |
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Comissão cambial Compras fora do euro |
Valor extra cobrado quando pagas em moeda estrangeira, como dólares ou libras, quer seja no estrangeiro quer em lojas online internacionais. | 1% a 3% por transação | Só é relevante se viajares ou comprares frequentemente fora da zona euro. Para uso exclusivamente em Portugal e na Europa, não é um fator determinante. |
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Seguro de viagem |
Cobertura de emergências médicas no estrangeiro, cancelamento de viagem ou perda de bagagem. Normalmente só ativa quando pagas a viagem com esse cartão. | Incluído nos cartões gold e premium; geralmente ausente nos cartões base | Lê sempre as condições antes de contares com este benefício. Muitos seguros exigem que pagues a totalidade da viagem com esse cartão específico para o seguro se ativar. |
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Limite de crédito |
O banco define o plafond do cartão com base nos teus rendimentos, despesas regulares, situação profissional e informações em bases de dados de crédito. | 500€ a vários milhares de euros | Um limite próximo do teu salário mensal líquido é suficiente para a maioria das situações do dia a dia. |
Para a maior parte das pessoas, a combinação ideal é simples: anuidade zero, cashback disponível e débito automático a 100% ativo. Tudo o resto é secundário. Um cartão mais sofisticado só faz sentido se usares ativamente os benefícios extra que ele oferece.